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Desafinado - Murilo Cleto

Desafinado - Murilo Cleto

Professor das Faculdades Integradas de Itararé, do Colégio Objetivo e da Escola Estadual Esther Carpinelli Ribas de Itararé/SP. Especialista em História Cultural e Mestrando em Ciências Humanas. Guitarrista da banda The Trip e de um blues trio. Vice-presidente do Bucaneiros - FC St. Pauli Brasil.

Artigo

23/01/2013 Civilização e Barbárie em The Walking Dead - a série em quadrinhos que é sobre tudo, menos zumbis.


Xerife de uma pequena cidade no interior da Geórgia, Rick Grimes desperta de um coma que durou meses. Levou a pior numa troca de tiros com bandidos e não viu o surto que mudou irreversivelmente a vida no planeta Terra. Aturdido, levanta da maca à procura de um simples sinal do mundo que conhecia antes de perder a consciência. Neste cenário pós-guerra, o policial não encontra outra coisa senão vazio e silêncio.

Lançada há uma década por Robert Kirkman e o desenhista Tony Moore, a História em Quadrinhos explodiu depois que virou série de TV a partir de 2010 e tornou-se a mais vendida de 2012 na América do Norte, alavancando como nunca as vendas da Image Comics.

Engana-se quem acredita na ideia de que The Walking Dead é uma trama sobre zumbis. Na verdade, é possível dizer que The Walking Dead trata sobre qualquer coisa menos zumbis. Desde a volta de Rick à ativa, a HQ inscreve-se numa série de obras da ficção que, a partir de diferentes perspectivas, abordam o mesmo tema: a linha tênue que separa civilização e barbárie.

Como no "apagão às avessas" em Ensaio Sobre a Cegueira, The Walking Dead escancara os limites de uma humanidade frágil como a carne de um zumbi em estado avançado de putrefação. Mais do que isso, os quadrinhos são um verdadeiro atestado de provisoriedade da civilité, que assume ares de barbárie nos momentos de pânico coletivo.

Na verdade, é possível dizer que o processo civilizador, originado há cerca de 12 mil anos, esteve umbilicalmente ligado ao controle do homem sobre a natureza e suas imprevisibilidades. E não por acaso, das primeiras barragens aos mais suntuosos palácios da Antiguidade, o fato é que a origem do Estado reside na organização desta força-tarefa, complexificada à medida que a expansão dos grupos tornou-se inevitável.

E é também verdade que nos tornamos relativamente mais dóceis conforme deixamos a vida menos condicionada ao limite e mais adaptada às regras do convívio social codificado por signos construídos. A partir daí, surgiram ou se aperfeiçoaram qualidades lentamente internalizadas no sujeito: beleza, bondade, felicidade ou qualquer um dos seus inversos. Quanto menos expostos aos riscos duma natureza implacável - que competia espaço com o ser humano e a morte parecia nada menos que uma questão de tempo, adiada talvez apenas pela brutalidade da barbárie - mais a humanidade pôde caminhar ao que chamou de civilização, sinônimo popular até hoje de bom comportamento.

O que The Walking Dead oferece é um mergulho às origens e ao fim da própria civilização. Assim que deixa o coma, Rick perde lentamente cada uma das insígnias que o constituíram oficial da polícia. Isso porque o sentido delas é particularmente implodido pelo caos instaurado a partir da série de contágios que transformou a maior parte do mundo em mortos-vivos. Como o contágio é imediato - afinal, basta um arranhão ou uma mordida de um dos "walkers" -, o desespero é a regra e não mais a exceção no comportamento dos poucos sobreviventes.

Pouco a pouco, tudo aquilo que constituiu a humanidade é ruído por novas investidas de zumbis famintos. Sem escolha, tudo o que resta é o caminho do puro horror. Como nos primórdios, a violência é justificada por um único fator: a própria sobrevivência. Desta forma, desfazem-se os paradigmas do que já foi um dia belo, bom ou feliz.

Mais: a própria noção de infância é posta às claras como culturalmente forjada a partir do momento em que Carl assume esporadicamente as rédeas do grupo nos momentos de ausência do pai, Rick. Do amável e tímido garoto de apenas 12 anos de King County, Carl é o sujeito que poucos meses depois alveja a própria mãe com um tiro à queima-roupa na fronte. Mortos - com ou sem a mordida dos walkers - todos são ameaça potencial ao grupo, pois em questão de minutos também se transformarão em mordedores. "Eu atirei na minha mãe. Ela morreu e não tinha se transformado ainda. Eu pus um fim nisso. Aconteceu", disse com segurança o mesmo menino que tempos atrás deveria adorar beisebol e sucrilhos pela manhã.

A passagem dos personagens a este novo universo é determinada pelo instinto de sobrevivência acompanhado da dor inexprimível causada pelo aniquilamento de tudo o que fez sentido um dia e não faz mais graças aos incontáveis cercos dos parasitas. O amor não soa nada além de fraqueza e, de todos os elementos que compõem a condição humana, resta cada vez mais o instinto, visitado apenas às vezes pelo altruísmo, à beira do colapso originado pelo caos.




Não apenas os zumbis, mas todo grupo alheio passa a encarnar papel potencialmente ameaçador pura e simplesmente por sua existência. Desde Freud, compreendemos o "Outro" não apenas como diferente, mas sinônimo de um espelho forjado pelo inconsciente arisco ao desconhecido. Sim, espelho, pois de acordo com o psicanalista o convívio com o Outro significa, na verdade, o encontro do "eu" com o próprio passado - neste caso, o bárbaro -, recalcado durante o processo civilizatório.

No século XVIII, Kant esboçou o que seria a tônica da Modernidade pós-Iluminismo. Através da separação metafórica entre maioridade e menoridade, dividiu a humanidade entre dois grupos essencialmente básicos: racionais e... não-racionais. Desta forma, a Europa civilizada, claro, justificou de antemão todo o processo "civilizatório" que colocou à força África e Ásia nas mãos do velho continente. Argumento corrente era o de que o Oriente era habitado por seres não completamente humanizados e a intervenção territorial ali mais do que necessária.

Não é novidade, no entanto, o confronto entre a bandeira da civilização diante do que ela mesma classificou de barbárie. Desde pelo menos os gregos antigos, "bárbaros" eram aqueles que não compartilhavam o idioma grego e eram interpretados como não completamente capazes de reconhecer a própria humanidade e, sobretudo, a dos outros. Quando Júlio César levou ao senado romano celtas e gauleses, patrícios aos montes vieram à loucura com tamanha afronta.

É mais ou menos a partir da mesma condição que esta nova humanidade fundada pelo surto de mortos-vivos justifica a brutalidade: a insegurança. Se a necessidade é a mãe das invenções, o medo é o pai da ditadura. Sob estado de pânico, o ser humano permite-se o que não avalizaria em situações convencionais. De frente para o horror, o indivíduo está prestes a entregar de bandeja a própria liberdade em nome da segurança.

Não por acaso, todo regime autoritário esteve justificado de antemão por alguma calamidade, seja ela econômica, social ou política. Antes da entrada dos militares aos pontapés em Brasília a partir de 1º de abril de 1964, já estava aberta há décadas uma campanha anti-comunista que transformou o que foi um golpe de Estado numa "revolução". Desta forma, o fim da democracia pôde paradoxalmente ganhar ares de libertação.
Impossível seria esquecer, é claro, a instauração do 3º Reich na Alemanha. Milhões de judeus, comunistas, homossexuais, ciganos e tantos Outros escravizados e mortos numa verdadeira blitz instalada pelo partido nazista liderado por Adolf Hitler. Desemprego e inflação recordes, 1 bilhão de marcos equivalente a simplesmente 1 dólar; anti-semitismo e anti-comunismo em alta, e a fórmula para o totalitarismo estava pronta: medo, fome, e um alguém a culpar.

É exatamente nestas condições que se encontram os personagens de The Walking Dead. Com o terror instaurado, são autorizados tribunais de exceção, execuções a esmo e como há 20 mil anos a resposta é a mesma: matar para não ser morto. Não apenas os zumbis são estraçalhados como coisas, mas também qualquer outro grupo encontrado não significa nada além de um arqui-inimigo a ser batido. O medo constante da perda de suprimentos e do território iguala os seres humanos às condições mais precárias duma natureza em tanta harmonia quanto uma composição dos Ratos de Porão. Mente por inocência quem diz que a natureza é perfeita, equilibrada e vive em paz. Bem por conta disso que o inimigo bom se transforma num inimigo morto - alguma semelhança com o discurso daqueles apresentadores sensacionalistas de telejornal policial?

Desta forma o circo está armado para o fascismo. Na 3ª temporada da série de TV, somos apresentados ao "governador", líder de Woodburry, uma comunidade de pouco mais de 60 pessoas, aparentemente dominada pela mais absoluta paz. Isso até qualquer rompante de ameaça, invasão de walkers ou chegada de estranhos. Dentro desta lógica, a principal defesa é o ataque, e qualquer fortaleza longínqua descoberta é sumariamente executada. À sangue frio, a milícia do povoado estraçalha toda possibilidade de resistência, interna ou externa.

Como todo déspota, o poder do Governador - chamado de Philip por quase ninguém - é concentrado por uma tríade composta por sobriedade, compaixão e força. Nesta recriação de um feudo medieval, o medo do "mundo lá fora" é tão intenso que nem os toques de recolher, os mistérios ou as expulsões importam mais aos membros. Participação popular ativa no poder, então, nem parece uma hipótese minimamente desejável. Descende daí todo o ódio contra Michonne, habitante não satisfeita com a ordem às custas do controle no povoado. Mais que o caso de uma rebelde sem causa - que a princípio incomoda qualquer espectador, tamanha a repulsa contra o líder -, a história da personagem transforma-se num símbolo de resistência e, principalmente, da reação do poder ditatorial a ela.

Tentativa de reviver o que constituiu até então uma civilização, Woodburry não é nada além de uma organização proto-fascista que exerce a ditadura sob a máscara da proteção. Seguros, nenhum dos seus habitantes têm com o que se preocupar. Vale até uma reprodução particular do pão e circo romano, quando gladiadores se enfrentam numa arena cercada por zumbis sedentos aprisionados e que se aproximam perigosamente dos lutadores. Show de horrores, o espetáculo ali não passa de uma comemoração coletiva mórbida da volta do controle do homem sobre a natureza. Com toda a docilidade do antigo eu, Andrea - ao lado do Governador - se revolta contra o próprio prazer em degustar o que sua moral civilizada jamais permitiria.

Mais que uma série sobre zumbis, The Walking Dead é um convite à fronteira que separou por séculos civilização e barbárie. Linha mais do que tênue, tem sido desmontada pela violência encapuzada de justiça ou proteção e jamais superada, como mostram as novas cruzadas vividas pela contemporaneidade. Uma a uma, as facetas da civilização têm sido derrubadas pelas recentes políticas de imigração na Europa, o esmagamento de civis na Palestina ou de Guarani-Kaiowás no centro-oeste brasileiro. No limite, a linha que separa civilização e barbárie não passa de uma invenção determinada pela própria violência como seu álibi.

Não assustam aqueles que ainda hoje insistem na ideia de que Hitler não passou de um maníaco. Como num conto de Edgar Alan Poe, parece o caminho mais fácil que a civilização encontrou para negar a própria barbárie. No fim das contas, nem civilizado, nem bárbaro. Numa palavra: humano.



Abraços,
Murilo.



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